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Ao cair da tarde
na serra gaúcha, final da primavera, o bosque já não era verde nem
escuro, era uma acolhedora poesia entre as folhas, a coruja
encontrou a cigarra diante de um muro depedras.
A cigarra olhava
para ele com as antenas baixas.
— Não consigo
passar. O muro é muitoalto - disse a cigarra.
A coruja pousou
num galho baixo e examinou o muro. Velho, feito de pedras
basálticas, entre hortênsias, araucárias, coberto de musgo, cheio de
frestas.
— Alto? —
perguntou a coruja. — Para mim ele parece cansado. Mal consegue com
o própriopeso.
A cigarra
suspirou.
— Você é uma
coruja. Eu sou pequenina,uma folhinha perto de uma árvore, diante de
você. Imagine diante desta muralha...
A coruja
pesquisou com os olhos.
— E o que há do
outro lado?
A cigarra
hesitou. Então sua voz, quase desapareceu. Parecia mesmo uma
folhinha.
— Meu amiguinho
grilo está lá. Faz dias que não ouço sua música. Tenho saudade.
Ao dizer isso,
seu coração comovido suspirou e alguma coisa mudou. O muro, que
antes parecia feitode pedra, ficou menos sólidoque a saudade. Vamos
repetir isso: menos sólido que a saudade. A cigarra aproximou-se,
tocou uma fresta, depois tocou outra. Cantou uma nota fina. A coruja
empurrou com o peito uma pedra solta. A cigarra puxou uma raiz seca.
O amor, a alma sopravam macio sobre o adobe, o talude de terra, as
pedras não talhadas de Jericó. O muro suavemente cedia.
— Viu? Às
vezes tem lá o amor suas mãos — disse a coruja.
A cigarra
atravessou a abertura e sorriu, encantada. A matéria tocada pela
alma amaciava.
A cigarra pensou
um pouco e perguntou:
— Então a alma é
transitiva?
— Talvez. Ela
passa para as coisas e as coisas passam para ela. Um muro pode ser
só pedra. Mas, quando atravessado pelo amor... Quando
atravessado pelo medo, era aquela coisatoda lá. . Quando atravessado
pela matemática, talvez vire apenas um cálculo, uma medida. Acho que
pode ser assim; explicou com incerteza a coruja.
A cigarra
sorriu.
Chamo aqui de
“transitividade da alma” essa peculiar circulação pela qual o íntimo
se torna mundo e o mundo se torna íntimo. Nem sempre é assim e não é
para todos. A parede não desapareceu porque alguém a imaginou menor.
A parede continua parede. A pedra continua pedra. Mas a realidade
humana é física e tantas outras manifestações também. Ela é também
afetiva, interpretada, investida por forças de desejo, memória, medo
e amor e assim por diante.
Em Spinoza,
sobretudo na Ética, a alma não é uma soberana isolada dentro do
corpo; ela é ideia do corpo, expressão de umamesma realidade vista
sob outroatributo. Os afetos aumentam ou diminuem nossa potência de
agir. Por isso, um pensamento amoroso pode tornar possível aquilo
que antes parecia intransponível; uma possibilidade. Ele não nega a
matéria, eleeventualmente reorganiza nossa relação com ela. O amor,
enquanto aumento de potência, pode talvez fazer ocorpo encontrar
caminhos, instrumentos, alianças. Já o medo e a tristeza podem
reduzir essa potência, fazendo uma barreira pequena tornar-se
enorme, ainda que medo e tristeza tenha às vezes funções
epistemológicas importantes.
Proust, em Em
busca do tempo perdido, ilumina outro aspecto.Amemória pode
assumir-se uma matéria viva, capaz de devolver ao presente uma
intensidade antiga. Um sabor, uma paisagem, uma música, uma forma
qualquer podem abrir dentro de nós um tempo inteiro. Assim, a
cigarra não teme apenas o muro de gravetos; ela reencontra,diante
dele, uma dor que ainda não terminou de acontecer. O passado passa
para o presente. Você entende? A alma, então, não é uma névoa
separada do mundo, é uma câmara de ressonâncias de pedra, canto,
lembrança e desejo, de ser.
Por isso há
pensamentos que têm corpo. E neste sentido,há ideias que levantam
casas, atravessam oceanos, derrubam paredes. Há outras que paralisam
a mão antes mesmo que ela toque a maçaneta. E há pensamentos quase
puros, como uma equação biquadrada (Matemática Simbólica), que
parecem suspensos em seu próprio céu abstrato, sem ferir nem salvar
ninguém até que, em algum ponto, também eles encontrem uma ponte com
a vida.
A transitividade
da alma é isto. Nada em nós fica inteiramente dentro, nada fora de
nós permanece inteiramente fora. Entre a parede e o pensamento,
entre o medo e o gesto, entre a lembrança e o mundo, há uma passagem
secreta. E talvez a amizade seja uma das formas mais belas dessa
passagem: quando uma alma empresta à outra, carinhosamente, um pouco
de sua potência.
Este estudo é um
prefácio ao curso de agosto a dezembro de 2026, terças-feiras, 19h,
presencial e pelo Zoom.
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